O LÚDICO E O DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA COM DEFICIÊNCIA VISUAL

 Olá, cheguem mais as mamães, papais,  professores e terapeutas.

Já falei com vocês aqui no blog sobre a importância do brincar.

Nesta semana em que se comemorou o Dia da Luta das Pessoas com Deficiência, venho dar algumas dicas PRÁTICAS de como adaptar jogos e brincadeiras para as crianças com deficiência visual, baseadas em minha experiência no atendimento a este público.

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Segundo o Censo Brasileiro de 2010, 45 milhões de brasileiros, 23,9% da população total, têm algum tipo de deficiência – visual, auditiva, motora e mental ou intelectual (BRASIL, 2010).

A deficiência visual apresenta a maior ocorrência, afetando 18,6% da população brasileira. Em segundo lugar está a deficiência motora, ocorrendo em 7% da população, seguida da deficiência auditiva, em 5,10% e da deficiência mental ou intelectual, em 1,40% (BRASIL, 2010).

O censo escolar de 2002 (INEP) registra 20.257 alunos com deficiência visual na educação básica do sistema educacional brasileiro. (BRASIL, 2003).

Os dados acima citados encontram sua importância, tendo em vista as dificuldades de muitas famílias e professores de escolas regulares em proporcionar atividades inclusivas, estimuladoras e lúdicas para crianças com deficiência.

Nota-se que as defasagens no desenvolvimento geral da criança com deficiência geralmente se dão pela limitação de experiências motoras (BRASIL, 2003).

Quanto menos a criança interage fisicamente no ambiente, menos ela experimenta situações de aprendizagem, menos oportunidades ela tem de formar conceitos básicos, menos ela se relaciona com o ambiente e com as pessoas, e mais ela se fecha dentro de SEU MUNDO particular e restrito.

A família, muitas vezes inconscientemente, superprotege o filho com deficiência, por diversos motivos,  seja pela desestruturação que o nascimento de uma criança com deficiência causa em sua família, pelo medo de que seu filho sofra preconceito ou exclusão, ou por falta de informações, e isto acaba limitando as oportunidades da criança.

Se ela não for estimulada desde cedo pelos pais, professores e outras pessoas que a cercam a conhecer o mundo, ela poderá assumir uma postura de passividade diante da vida e terá seu desenvolvimento comprometido.

Brincar é um componente crucial do desenvolvimento.

Através de brincadeiras, o bebê deve ser estimulado a buscar brinquedos e pessoas, alcançá-los e com eles brincar. A criança deve ter contato com outras crianças, ser levada a parques, festas e incluída na escola.

Na escola ela deve participar de todas as disciplinas, inclusive das aulas de educação física.

Um professor criativo será capaz de incluir os alunos com deficiência em ampla variedade de atividades (BRASIL, 2003).

Cada tipo de deficiência pedirá adaptações de determinados aspectos.

E muitas vezes não precisa ser modificado nada para que a criança participe efetivamente de um jogo ou brincadeira.

No entanto, é necessário conhecer cada tipo de deficiência e as implicações que costuma acarretar ao desenvolvimento da criança.

A deficiência visual costuma influenciar a noção espacial e a locomoção da criança.

Para que a criança com deficiência visual participe de jogos e brincadeiras, pode ser necessário fazer algumas adaptações nos seguintes aspectos:

Ø    O mecanismo de informação:

Colocar-se diante da criança com baixa visão em uma posição que ela possa vê-lo e possibilitar que a criança cega toque você quando sentir necessidade (o que chamamos de técnica da sombra).

O adulto deve se atentar  para a linguagem que utiliza com a criança. Ela deve ser precisa. Deve-se falar claramente, utilizando palavras conhecidas pela criança.

As crianças maiorzinhas, que já se comunicam verbalmente, dão importantes feddback, falando quais modificações poderão ajudar mais.

Ø    O espaço físico:

Quando for utilizar uma sala pela primeira vez, deve ser feito o conhecimento deste local com a criança, mostrando para ela tudo que tem disponível no espaço, marcando pontos fixos de referência e atentando para os obstáculos que possam causar acidentes.

Sempre que necessário, deve ser feito o reconhecimento do local.

Se possível, mudar informações visuais para pistas auditivas ou táteis. Por exemplo:  na brincadeira “coelhinho sai da toca”, pode-se substituir o desenho de giz no chão (tocas) por bambolês.

Usar pista tátil para orientação no espaço, tais como colchonetes demarcando a trajetória de uma estação a outra em um circuito de exercícios.

Outra alternativa é  colocar uma corda estendida no local, a uma  altura semelhante à da cintura da criança, delimitando o espaço físico de um jogo na quadra da escola, por exemplo.

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Ø    O material: 

Primeiramente é importante deixar que a criança explore o material, objeto ou brinquedo novo. Ela vai descobrir de que material é feito, qual o formato, tamanho, altura, entre outras características.

Para cada condição visual, pode ser indispensável adaptações específicas no tamanho, cor, contraste e textura.

Bolas com guizo ou envoltas em sacolas plásticas fazem um som, que auxilia a criança cega a identificar seu posicionamento.

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Na brincadeira de pular corda, para uma criança cega conseguir perceber o ritmo da corda, muitas vezes basta usar uma sacola plástica amarrada na parte da corda que toca no chão, para dar pista sonora.

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Já no caso de uma criança com baixa visão, pode-se usar um contraste de cores no material, para dar destaque, resolvendo a questão ao passar uma fita isolante em alguns pontos de uma corda branca.

Outra sugestão, para jogos de futebol é confeccionar a trave com canos de pvc, pintar com tinta amarela e passar fita preta.

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Ø    As regras:

As variações nas regras das brincadeiras visam propiciar a máxima participação da criança com deficiência visual.

Pode-se empregar o “chamador”, que consiste em uma pessoa que vai fazer som para orientar a criança, com palmas ou chamando seu nome.

Em brincadeiras com corrida na escola, com várias crianças se movimentando ao mesmo tempo, tipo em um jogo de “pega-pega”, pode ser melhor que aluno cego fique de mãos dadas com um aluno vidente, para sua segurança, evitando trombadas.

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​ As atividades de Orientação e Mobilidade são muito importantes para ajudar na orientação da pessoa com deficiência visual no espaço físico, com objetivo de obter independência ao se locomover.“Ao dominar esses espaços e sentir-se inserido neles, com independência e naturalidade, o educando adquire maior confiança em si e maior domínio pessoal, condições favoráveis a sua integração social.” (Brasil, 2003).

Já a Atividade de Vida Prática e Diária (AVPD), tem como objetivo proporcionar condições para que a criança, dentro de suas potencialidades, possa formar hábitos de auto-suficiência que lhe permitam participar ativamente do ambiente em que vive, como a higiene pessoal e ajuda nas tarefas domésticas.

A criança vai adquirindo autonomia para alimentar-se, vestir-se, ir ao banheiro sozinha e escovar os dentes, por exemplo, sem necessitar de ajuda ou apenas com ajuda parcial.

Tanto a Orientação e Mobilidade como as Atividades de Vida Diária são importantíssimas para a autonomia e independência da pessoa com deficiência visual.

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(Algumas imagens são de arquivo pessoal e outras de domínio público na internet)

 

REFERÊNCIAS:

BRASIL. Cartilha do Censo 2010 – Pessoas com Deficiência. Brasília : SDH-PR/SNPD, 2012.

______. Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades de alunos cegos e de alunos com baixa visão. Brasília: MEC, SEESP, 2003.

_____. Programa de Capacitação de Recursos Humanos do Ensino Fundamental – Deficiência Visual. Série Atualidades Pedagógicas, 6, vol. 1. Brasília: MEC / SEESP, 2001.

______. Orientação e Mobilidade: Conhecimentos básicos para a inclusão do deficiente visual. Brasília: MEC, SEESP, 2003.

FARIAS, G. C. Intervenção precoce: reflexões sobre o desenvolvimento da criança cega até dois anos de idade.  Pensar a prática, vol. 7, n.I, 2004.

PRISCILA CRISTINE RIBEIRO

Professora de Educação Física em escola, mãe de um meninão esperto, colunista no blog Maria Babona e autora dos blogs www.maternoamoreterno.blogspot.com, www.professoradeeducacaofisica.blogspot.com e energiaemovimento.blogspot.com.


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