Posso contar histórias de medo pro meu filho?

Pode. É isso mesmo. Não só pode como deve!

Aiaiaiuiui… Vamos lá:

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Essa perguntinha simples é feita com bastante frequência nos cursos de narração que ofereço para pais e educadores. As dúvidas mais comuns giram em torno de “será que não vou traumatizar meu filho?”, “como vou saber se ele está pronto para ouvir isso?”, “esse conto não é muito forte pra idade dele?”, “e se a criança começar a chorar?”. Resolvi trazê-lo à tona depois de um pedido da Marta, nossa Maria Babona, para comentar sobre um filme polêmico para as crianças. Quero deixar bem claro que opiniões diferentes são bem-vindas: dialogando a gente aprende; e também que é um tema extenso – nesse post não vou esgotá-lo. Quero apenas puxar o assunto, sugerir livros bacanas e claro, depois podemos continuar o papo tomando um café.

Como contadora de histórias eu sou super a favor de contar enredos “de medo” para crianças de qualquer idade, tanto pela teoria, quanto pela prática. Entendo por histórias “de medo” aquelas que incluem arquétipos ou personagens mais obscuros, como “a noite”, a “escuridão”, a “bruxa”, “o monstro”, o “mal”, a “morte”, até aqueles mais suavizados como o “lobo mau”, “a madrasta”, “o caçador”, “o ladrão”. São contos, mitos ou anedotas que ao nosso olhar, adulto, ou dentro de uma classificação mais convencional de gêneros, incluem suspense, alguma tragédia, perdas ou insinuam algum tipo de dor. É claro que há histórias divertidas que incluem estes itens, mas considero aqui aquelas que destacam-se por esses temas em específico.

  • Desde a TEORIA sabe-se que contar esse tipo de narrativa para crianças é muito especial por três motivos básicos. Primeiro, porque cedo ou tarde ela vai conhecer essas figuras: o vilão, o ladrão, o malvado. Se ela puder conhecê-los através das palavras do pai ou da mãe, menos traumático poderá ser o encontro com a figura na vida real. É simples o raciocínio: a partir do momento que ela sabe que um bandido existe, pode notar ações desonestas e começar a construir seus valores sem se surpreender totalmente. Segundo, porque apesar do poder imaginativo da criança, a partir do livro os seres são todos ficcionais, não estão concretos, tem o tamanho que elas decidirem, e durante a leitura essa conversa pode ser aberta com os pequenos. A criança precisa saber que pode escolher quando parar de ver, quando ver de novo, tirar dúvidas sobre o que a assusta e sobre como precaver-se para enfrentar cada criatura. Afinal, muitas dessas figuras representam momentos que ela viverá em sua vida, como o deparar-se com a mentira, com a traição, com a inveja ou o abandono. A história permite uma “viagem terrível” mas “com retorno certo”, e tão logo o pequeno se dê conta disso, mais fortalecido estará para combater seus próprios anseios. Em terceiro, exatamente por isso: porque através das histórias as crianças podem viver as dificuldades que podem vir a enfrentar quando mais velhas de forma mais leve e segura, sem de fato sentirem a dor física ou passarem pela infeliz situação. Fazem o exercício de lidar com alguns sentimentos complexos mas muito humanos ficcionalmente, e pelo  curto tempo da leitura. Como o pavor, a raiva, a tristeza.

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  • Na PRÁTICA, contar narrativas de medo faz um grande sucesso e tem um papel importante por n motivos. Apenas para listar alguns, porque os vilões também são admiráveis, e não há nada de errado nisso. Todos nós conhecemos a história do lobo mal e nem por isso queremos enganar vovozinhas, certo? Os vilões exercem muitas vezes algum tipo de fascínio sobre as crianças mas isso é saudável – uma pscicóloga poderia colaborar neste aspecto. De minha parte vejo que interessa para as crianças especialmente para aquelas que estão acostumadas a verem só filmes em que as princesas alcançam finais felizes e os heróis combatem o mal. Finais felizes também estafam, e um pouco de adrenalina mexe com qualquer coraçãozinho: ver que que o outro lado da moeda nem sempre é derrotada os fazem refletir sobre maniqueísmo, sobre por quem vale a pena torcer, descobrirem o sentimento da indignação e da esperança. Elas podem se sentir supreendidas com a astúcia daqueles que enganam e fazem as armadilhas, o que  é fundamental inclusive para alertá-las: os personagens bons nem sempre são os mais inteligentes – há um intervalo entre bondade e ingenuidade que elas precisam se atentar. Além disso, é fundamental contar histórias de medo para trabalhar não só sua capacidade criativa – imaginar fantasmas e bruxas, por exemplo, é um exercício importante, já que nessas histórias sombrias a maioria das figuras é mesmo fantástica, irreal-, mas também sua capacidade emotiva. A criança pode chorar, gritar, espernear, pedir colo, proteção e aliviar seu coração, num encontro mesmo de catarse. Ela sentirá medo sim, mas também um enorme e delicioso alívio com o fim da história, em que poderá se reconhecer livre, segura e saudável no conforto e na companhia de seus pais. Sua noção de realidade e acolhimento será ampliada, e a de magia vai começar a ser separada do mundo de fato em que vive. (Meu público infantil geralmente AMA quando faço o “horripilante comedor de porquinhos – o Senhor Bad Wolf”, e me pedem para repetir sua voz e mostrar suas garras repetidamente. Ele é terrível mesmo: terrivelmente querido!! rsrs)

“Legal, Kali. Mas na hora do “vamo ver” não é exatamente assim. Meu filho é medroso, chora por tudo, não pode nem ouvir falar de histórias de terror. Até de palhaço ele tem medo!” Sem problemas. Vamos a alguma dicas.

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  1. Procure introduzir as figuras “de medo” aos poucos. Num bate papo-informal, apresente-as de maneira leve, fora da história. Por exemplo: “Filho, você sabia que existem mulheres que viajavam em vassouras? Eram bruxas poderosas, que faziam feitiços para conseguir o que queriam. Esquisito, né? Mas fique tranquilo, essas coisas são típicas de livros”. Depois, na hora da história, em que a bruxa aparecer, você pode retomar essa consideração, caso venha o choro: “Lembra filho, que a mamãe falou pra vc? Mas fique tranquilo, a bruxa só tem vida aqui dentro do livro…”
  2. Mesmo se não tiver no enredo, uma boa ideia é, na hora de apresentar um personagem horripilante, acrescentar pra ele um defeito que quebre seu grau de terror: “Era um monstro horrível, que devorava pessoas quando estava bravo. Misturava todos que encontrassem num enorme caldeirão sem nenhuma piedade… Mas ele tinha um chulé tão grande que quem viu isso só viu de longe, porque não dava para chegar perto”.
  3. Não desfaça o final triste. A criança pode até se decepcionar, mas ela precisa conhecer os infortúnios também. Se a frustração for muito grande, tente acalmá-la e pergunte “filho, como você gostaria que fosse?”, “vamos fazer um desenho de como você imaginou?”, “de qual personagem você gostou mais?”. É muito mais bacana questionar os pequenos e dar a eles o poder de refletir sobre a história, do que julgar os personagens e tentar convencê-los “viu filho, esse rei era muito bravo!, nunca faça como ele!!”. Um discurso moralista pode angustiar ainda mais a criança e fazer com que ela associe personagens a valores que nem sempre são típicos dele – há reis generosos, por exemplo.
  4. Se a criança sentiu medo durante a leitura ou a escuta da narração, faça-a mudar de lugar e retornar. Encontre um espaço mais amplo, iluminado, colorido… distraia-a por um minuto e retome a história. Não abandone o conto, é importante fechá-lo, concluí-lo. Mas permita-se interrompê-lo, continuar numa outra hora. Com a gente também é assim: às vezes dar uma volta para refrescar a cabeça pode fazer uma imensa diferença na hora de digerir os assuntos mais pesados da vida.

Para os pequeninos, minha dica é o delicioso Quem tem medo de monstro?, da Ruth Rocha, na combinação divertida com as ilustrações da Mariana Massarani. Para os maiorzinhos, invista no Medo? Eu, hem?,um livro óóótimo do queridíssimo cordelista Moreira de Acopiara, com as imagens da Michelle Behar. Dois grandes sucessos da biblioteca nacional que vão fazer diferença aí na sua casa!!

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Um dos nossos filmes preferidos, Meu Malvado Favorito, já trouxe pra gente a ideia de que nem todo vilão é tão mau assim!, e as crianças adoram. Coraline, polêmico longa-metragem super fantástico, é um dos preferidos de uma grande turminha – ver o pai e a mãe transformados é uma ideia mais divertida do que assustadora. Assim como uma porta escondida que, ao invés do porão, revela uma realidade incrível que as crianças amariam viver! Uma atração análoga a que a geração anterior tem por Edward Mãos de Tesoura: olhos de botão afligem mas causam curiosidade… Façam o teste com as histórias, pessoal!, e depois me contem as experiências. Mas não esmoreçam no primeiro choro: mesmo com uma pitadinha de medo, a criança pode ser amando. A regra SEMPRE é o bom senso e claro…, dar uma boa olhadinha no texto da história antes.

Acho que é isso. Até a próxima dica! Não esqueçam de comentar 🙂

Kalinde Braga
O seu evento fazendo história!
INSTAGRAM @kalindebraga

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